O mapa mundial da vacinação contra a covid

Um genocida não extermina a pátria sozinho

Sete países somam mais de 50% das mortes por covid-19 no mundo. O que será que estes países podem ter em comum além do fracasso em salvar vidas?
The Art Institute of Chicago
Obra: In the Waves of Love (1896),
de Edvard Münch

Não restam dúvidas de que o governo Bolsonaro favorece o vírus e facilita o caminho para as piores sequelas que o País pode carregar para as próximas décadas. A carapuça de genocida é um bom atalho para o esgoto da História.

Quando dispensou a ex-futura ministra da saúde, Ludhmila Hajjar, Bolsonaro foi questionado sobre os ataques do gabinete do ódio. “Faz parte“, disse. Xingá-lo de genocida faz parte do dia-a-dia do que restou da política nacional e canaliza a raiva para a figura máxima da República. Ao mesmo tempo, assim como grande parte da população não sabe o significado da palavra ‘genocida’, a gritaria em torno dela ofusca olhares e atenções deixando intocadas as raízes da tragédia. Quais seriam essas raízes?

Capitalismo necropolítico

Bolsonaro pode ser o maior culpado, porém, está longe de ser o único responsável quando se trata do extermínio por covid-19 no Brasil. O bolsonarismo é um fenômeno maior que Bolsonaro.

Se o Brasil se tornou uma ameaça sanitária mundial, não chegou aqui só. Alguns números, vistos isoladamente em uma planilha, até podem confirmar a versão de Bolsonaro, aquela que diz que o Brasil não é o pior país na gestão da pandemia. É verdade que três países europeus e os Estados Unidos perderam mais vidas, proporcionalmente, até aqui. Estamos entre os 7 piores, de mais de 200 países, mas não somos o pior. Para o bolsonarismo genocida, há exceções mais mortíferas porque, além de o vírus ser uma conspiração, os cúmplices duvidam das estatísticas mais simples.

Com 28% da população mundial, sete países concentram 52% das mortes por covid-19.

Números totais aproximados consultados dia 18 de março de 2021. Fonte: Google

A existência de um Bolsonaro no mundo é quase uma dádiva para líderes que propagam discursos sensatos mas fracassam na gestão da pandemia. Estes ‘sensatos’ governantes não são chamados de genocidas, apesar de apresentarem, no panorama geral, índices piores de mortes por covid-19 em suas nações. É o caso do Reino Unido, da Itália, da Espanha e dos Estados Unidos.

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O capitalismo necropolítico não é uma exclusividade brasileira.

Bolsonarismo e os tradicionalismos globais

Sabotar a vacinação e interditar o combate à pandemia em nível federal é cruel, grotesco e escancara o sadismo deliberado, mas essas ações e omissões não caracterizariam um genocídio ‘pessoal’ do presidente. Bolsonarismo e estruturas republicanas se confundem ao dar sustentação ao delírio coletivo, incluindo instituições do Estado Democrático e até mesmo eleitores e setores da sociedade que ainda o apoiam.

A sustentação da popularidade do negacionismo – até mesmo dentro das estruturas institucionais – é diretamente ligada aos crescentes movimentos da extrema-direita neotradicionalista.

Financiados por um dinheiro invisível e complacência das maiores empresas de tecnologia do planeta, os movimentos que combatem o ‘globalismo’ ironicamente surfam uma onda global, produzida artificialmente e com interesses mais do que obscuros.

Embora seja improvável que o Tribunal Penal Internacional o julgue pelo caos pandêmico brasileiro, ainda assim há esperança entre especialistas de que ele possa responder por microgenocídios: indígenas, quilombolas, periféricos ou invisíveis. A chance de a Justiça brasileira julgá-lo apropriadamente é a mesma de haver julgamento dos torturadores da ditadura militar.

Os militares, ao recusar o papel de cúmplices do genocídio, não estariam então admitindo que o governo Bolsonaro promove o extermínio?

Sobretudo de pessoas negras e pobres, que são, pelas estatísticas, as maiores vítimas da pandemia? Curiosamente, antes da pandemia, o Brasil já assumia o posto de país mais homicida do mundo, exatamente com este mesmo grupo-alvo. Coincidência?

É preciso dizer em alto e bom som que Lira, Pacheco e Aras estão protegendo o pior presidente da história do Brasil. Os três prestam serviço ao obscurantismo“, diz Kennedy Alencar, colunista do UOL.

PGR, militares, fator ‘divino’ e demais ajudantes

Para os suspeitos de cumplicidade com a mortandade inédita, os números subnotificados dizem que os brasileiros estão morrendo pouco. Que há margem para se morrer mais. No País de 60 milhões de invisíveis, fazer parte dos números oficiais virou um privilégio.

Sem espaço nas UTIs, a solução é abrir novos leitos ou aguardar seus ocupantes morrer. Logo são preenchidos para confirmar a utilidade dos respiradores comprados com atraso e superfaturamento.

Mídia ‘conservadora’ e ‘ultrarreligiosa’

Setores bilionários nunca se esforçaram para disfarçar o sadismo. A mortandade está precificada em desinvestimentos, desindustrialização e congelamento orçamentário. Com bolsa e dólar nas alturas, daytraders comemoram a alta de juros. Setor agrícola ‘salva’ economia segurando rombo maior no PIB. Empresários superfaturam em meio ao colapso dos hospitais. Kits de cura falsa são distribuídos com anuência de parte da classe médica. Prefeito pede explicitamente que cidadãos dêem a vida para salvar a economia.

Há os que se apropriam do discurso negacionista com interesses variados, e há os que incorporam a visão bolsonarista do mundo porque não têm outra.

Desde 2020, o extermínio é anunciado ao vivo em rede nacional.

Reprodução: TV Globo (7 de maio de 2020)

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Tiago é jornalista e escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. Trabalhou mais de 10 anos no varejo e no e-commerce de livros nacionais e importados. Atualmente cursa especialização em Ciências Humanas na PUCRS e Ciência Política no IERGS.