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O alerta de um ex-delegado sobre o PIX

Há sempre interesses envolvidos na adoção maciça de novas tecnologias. Porém, no caso do PIX, houve apenas a ampliação e melhoria de um serviço que já existia.
Foto: Reprodução
Título e texto alterados em 5 de outubro de 2021 em razão do aumento de crimes envolvendo o PIX.

É totalmente compreensível a desconfiança dos brasileiros com o sistema bancário e financeiro. Num passado não muito distante, nos anos 1980, a hiperinflação corroía o valor do dinheiro.

Em seguida, em 1992, milhões de brasileiros tiveram as economias confiscadas da poupança em nome de um plano econômico que fracassou.

Você talvez conheça alguém que ainda não confia 100% em nenhum banco até hoje, principalmente de gerações que assistiram ao colapso financeiro de perto, e que prefere manter uma quantia em dinheiro vivo em casa, no caso de um possível “bloqueio do governo”.

Nesta semana, um personagem desconhecido do público surgiu no Whatsapp, no Facebook e outras redes sociais e foi visto por milhões de pessoas: o ex-delegado Fernando Morais, da divisão anti-sequestro (DAS) da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

No vídeo, ele alerta para uma possível explosão de crimes financeiros – contra qualquer pessoa portando um celular – facilitada pela nova tecnologia do sistema financeiro nacional implantada desde o dia 16 de novembro – o PIX.

Breve histórico

Desde 1994 a economia e o sistema financeiro nacional vivenciam uma certa estabilidade. Houve alguns casos pontuais de bancos que quebraram.

Um novo mecanismo, porém, o Fundo Garantidor de Créditos, mantém um certo grau de confiança no sistema gerido pelo Banco Central do Brasil – fundado na Era Vargas, nos anos 1930, com a ajuda do Federal Reserve, entidade equivalente dos Estados Unidos.

O PIX é um serviço adicional de transferências instantâneas de valores entre contas no Brasil. A vantagem em relação ao atual sistema de TEDs e boletos é de que pode ser realizado a qualquer horário do dia ou da noite, todos os dias, incluindo finais de semana e feriados.

Além disso, tem um custo operacional mínimo para os bancos e é gratuito por lei para pessoas físicas.

O temor do ex-delegado, que alertou para uma explosão de golpes e crimes, acabou se concretizando na prática, meses depois, limitando a R$ 1.000 as movimentações das 8 da noite às 6 da manhã.

Os argumentos

  1. o PIX facilita a vida de criminosos
    A lógica de “não devemos adotar uma nova tecnologia porque ela facilita a vida do criminoso” é, na verdade, uma lógica sem sentido, porque se fizesse algum, não haveria nem mesmo o próprio celular, que virou um dos objetos preferidos dos roubos e furtos em todo o mundo;
  2. o PIX vai aumentar o número de roubos
    Um ladrão que possui uma arma na mão consegue hoje ‘roubar’ dinheiro da mesma forma via TED ou DOC, e certamente pode, empunhando uma arma, ainda preferir a modalidade ‘sequestro relâmpago’ – esta já uma velha conhecida dos brasileiros. Certamente o PIX é mais um canal de saída de dinheiro da sua conta: quanto mais protegida ela estiver, mais seguro vai estar o seu dinheiro. Lembre-se que o PIX é apenas mais uma maneira de sair dinheiro da sua conta. Da mesma forma, pode ser uma boa ideia manter seu cartão de débito longe do Whatsapp Pay;
  3. a tecnologia facilita a criminalidade
    Sim, é verdade. Se analisarmos sob o ponto de vista de que as armas em si são uma tecnologia, que os golpes já existentes em larga escala na internet envolvem a tecnologia, então em 2020 cabe uma discussão abrangente sobre os usos das tecnologias – que nunca são isentas de viés. Tudo à nossa volta é tecnologia e precisa de educação e até mesmo uma alfabetização tecnológica. Entretanto, um discurso puramente antitecnológico, como o defendido pelo ex-delegado, não contribui para este debate, pelo contrário: espalha medo, desconfiança e alarmismo sem fundamento, já que o PIX populariza e barateia um serviço já oferecido pelas instituições financeiras;
  4. segurança pública é assunto para a polícia
    O Banco Central e os bancos têm como objetivo trabalhar pra aprimorar o sistema financeiro e a circulação do dinheiro. Já o sr. Delegado e as polícias deveriam ter como foco a melhoria das políticas de segurança pública. Não seria melhor ele assumir um discurso anti-armas, por exemplo, ao invés de espalhar alarmismo? Ou talvez questionar um outro tipo de tecnologia, a de reconhecimento facial, que vem sendo disseminada sem a devida discussão com sociedade civil?

Mais prós do que contras

Todo o cuidado é pouco (e não é de hoje) em transações online. Não é à toa que governança e blockchain são as palavras da vez. Por exemplo, abrir uma conta digital gratuita em uma fintech pode ser uma opção para movimentar quantias do dia-a-dia e, desta forma, separar as economias em outra conta, sem acesso pelo celular.

Especialistas dizem, ainda, que a segurança do PIX é superior ao ‘antigo’ sistema de TEDs e DOCs, já que as transações geram códigos rastreáveis.

Além de não confiar muito no sistema financeiro, também se perdeu a confiança nas investigações de crimes pela polícia, por isso a rastreabilidade pode ser um recurso quase irrelevante. Porém, se existe, pode ser acionado em casos de roubo ou fraude.

Para nós, consumidores comuns, o PIX facilita pagamentos e transferências, além de diminuir sensivelmente os valores cobrados por bancos para realização de TEDs e DOCs – tarifas que podem variar de acordo com o status dado pelas instituições a cada cliente.

Para pequenos comerciantes informais que usam as maquininhas de cartão no próprio CPF, e que pagam uma taxa de cerca de 1,99% por operação para recebimentos no débito, o PIX se apresenta como uma excelente alternativa para driblar esta “mordida” das administradoras de cartão.

O que os bancos ganham com o PIX

O PIX também é um ótimo sistema para que os grandes bancos parem de perder clientes para as fintechs, já que estas novas empresas em muitos casos já oferecem TEDs gratuitas e ilimitadas.

Os grandes bancos não oferecem essa facilidade a todos e sentiram que, com o PIX, passam a ser mais competitivos nesta modalidade ao oferecer um serviço similar e obrigatoriamente gratuito.

Afinal, houve algum dia que os bancos não ganharam no Brasil? Pelo menos agora eles podem ganhar sem que os clientes necessariamente percam.

E você? Qual a sua opinião sobre o PIX? Por aqui, não defendemos nenhuma verdade universal e adoraríamos saber a sua posição. Fique à vontade para comentar abaixo, e obrigado pela leitura.

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Tiago é jornalista e escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. Trabalhou mais de 10 anos no varejo e no e-commerce de livros nacionais e importados. Atualmente cursa especialização em Ciências Humanas na PUCRS e Ciência Política no IERGS.