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Coronavírus não foi assunto na reunião ministerial porque é comunista

(Brasília - DF, 22/04/2020) - Reunião com Vice-Presidente da República, Ministros e Presidentes de Bancos. Foto: Marcos Corrêa/PR

Somente para quem ouve a ciência, o coronavírus é uma praga desastrosa que mata. Na lógica miliciana bolso-olavista, o novo coronavírus não é um problema: é uma distração perfeita para passar a boiada, vender essa porra logo ou prender aqueles vagabundos. A peste letal que mata milhares e amedronta bilhões não merece a atenção do seleto grupo de toscos notáveis.

As partes do vídeo mantidas em sigilo pelo decano Celso de Mello, como os ataques ao Partido Comunista Chinês, deixam claro que a prioridade do governo é manter vivas as fantasias de combate ao comunismo mundial – não as brasileiras e brasileiros.

Na China, o vírus americano é uma conspiração geopolítica.

Bolsonaro finge demência ou loucura por estratégia. A base de 30% é fiel ao mito porque é estupidamente igual ao ídolo (por má-fé escancarada), ou simplesmente porque está afogada numa realidade paralela artificial, caótica e negacionista. Bolsonaro capitaliza politicamente todos os escândalos em que está envolvido. Mas, no fundo, sabe que para o barco afundar, é uma questão de como e quando.

A divulgação do vídeo da reunião ministerial é 100% coerente com a estratégia de se manter na boca do povo a qualquer preço. A retirada do sigilo do vídeo pelo ministro Celso de Mello criou o mesmo suspense que havia com os exames negativos, e que o paciente que preside um país se recusou a mostrar.

De início, a regra é fingir contrariedade, e depois de os casos irem parar na justiça, o bolsonarismo os capitaliza politicamente. No vídeo da reunião ministerial, nenhuma novidade além do bolsonarismo em estado puro: grosserias autoritárias, apologia ao golpe de 1964, discurso armamentista, ataques à esquerda e ao comunismo fictício (que fingem tão bem acreditar), a defesa demagógica da “liberdade” (irrestrita e sem leis, para eles) – todos os ingredientes de uma salada bolsonaresca completa.

Bolsonaro demonstrou publicamente estar preocupado com a divulgação do vídeo. Grandes jornalistas que fazem a cobertura dos bastidores de Brasília o ajudaram a amplificar a expectativa: tudo o que esses jornalistas diziam era que os interlocutores consultados, inclusive militares, não concordavam em tornar a reunião pública – com direito à nota à nação, em tom ameaçador, do general-ministro Heleno, dois dias depois que tranquilizou a mesma nação dizendo que os militares não vão dar golpe ou fazer intervenção.

Tranquilo, pero no mucho

Antro de charlatães

Para o vídeo ganhar sentido, não se pode ignorar o universo paralelo criado pelo bolsonarismo no WhatsApp. Parece ingênuo acreditar que algo assim seja possível, mas você deve conhecer alguém que acredita na cloroquina como cura da covid-19, que estamos sob a constante ameaça comunista, ou pior, que o vírus possa até mesmo não existir. Há também um antigo boato circulando de que o Grupo Globo estaria à beira da falência. A indústria de fake news é oficial.

Na lógica bolsonaresca, o vírus trabalha junto com governadores e prefeitos comunistas (disfarçados) que pretendem dar um golpe contra as “liberdades” do povo. Por que deveria ser assunto de um grupo tão privilegiado quanto o antro oficial dos charlatães ilustres? Sob esta ótica, o vídeo é uma peça de propaganda, e a estratégia de divulgação foi um sucesso. A realidade paralela mais uma vez saiu do WhatsApp e ganhou as telas da TV Globo em todo o país. Neste sábado, Bolsonaro foi visto comendo cachorro-quente na rua.

O post da Secretaria de Comunicação (Secom) no Twitter e o vídeo do canal Viva Notícia no YouTube já foram removidos pelas empresas após denúncias de usuários.

Faria Limers

O ministro da economia, Paulo Guedes, não apenas voltou a exaltar a economia do Chile na era Pinochet, como sugeriu contratar um milhão de jovens soldados para o Exército a R$ 300 por mês, e também deixou à mostra todo o carinho que tem pelo Banco do Brasil: tem que vender essa porra logo. Também falou que o governo vai ganhar dinheiro salvando as grandes companhias e perder dinheiro salvando as pequenininhas.

Bota peruca loira, passa batom vermelho, mas não vamos perder o rumo econômico

Ministro da Economia, Paulo Guedes, na reunião ministerial

O mercado confia no atual ministro e não vê aumento nos riscos políticos após a divulgação do vídeo ministerial.

Enquanto o Ibovespa futuro subia, o Ibovespa real caía 1,03% na sexta-feira, 22 de maio.

Icebergs institucionais

O vídeo é também uma das peças de um inquérito no STF – um iceberg jurídico gerado pelo pedido de demissão do ex-ministro e ex-juiz Sérgio Moro – que pode abrir um caminho institucional para o afastamento do presidente.

Para o barco do presidente bater e afundar neste iceberg institucional, é necessário que o procurador-geral da República, Augusto Aras, aquele que furou a lista tríplice e é considerado um aliado pelo bolsonarismo, formalize uma denúncia ao final do inquérito – que apenas prosseguirá no STF após o aval de 2/3 dos deputados federais.

Um outro iceberg institucional para remover Bolsonaro da presidência – este, menos provável devido às restrições de manifestações populares nas ruas por causa da pandemia – seria a inclusão de um dos 40 pedidos de impeachment na pauta da Câmara pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia.

No vídeo, o presidente erra em um único ponto: se ele afundar – seja pelo caminho que for – ninguém mais afunda com ele, todos permanecem boiando onde estão, a começar pelos generais. A não ser, claro, na hipotética e nunca-antes-vista cassação da chapa Bolsonaro-Mourão pelo TSE.

Mesmo encurralado por icebergs institucionais, Bolsonaro atira para todos os lados e enxerga mais longe que qualquer um naquela reunião: não apenas interferindo na Polícia Federal, como pode parecer. Ele trabalha nos bastidores para eleger o deputado-bispo Marcos Pereira como sucessor de Rodrigo Maia na presidência da Cãmara.

Marcos Pereira já foi diretor da Rede Record e é o homem de confiança de Edir Macedo, como mostra a reportagem da Agência Pública que republicamos aqui. Bolsonaro também loteou cargos no governo comprando votos do Centrão contra o impeachment por precaução – caso Augusto Aras ou Rodrigo Maia resolvam fazer o trabalho sujo que ninguém parece querer para si.

Bolsonaro cobra pulso firme dos ministros para blindar os filhos e a si próprio porque sabe que, se cair, cai sozinho. Eu tou me lixando para a reeleição, diz ele. Se conseguir chegar a 2022 no cargo, será uma vitória pessoal e tanto. O terreno de desgraça, que já conta com mais de 22 mil mortos e 330 mil infectados, diz ele num outro ponto da reunião, é fértil para ditadores.

E segue: como é fácil impor uma ditadura no Brasil, se referindo a governadores e prefeitos. Esqueceu que para o chefe soberano das Forças Armadas (ele próprio) cercado de generais e apoiado por uma soldadesca delirante está sendo ainda mais fácil.

Já falamos por aqui:

Com o impeachment, sai o capitão mas ficam os generais
Os delírios extremistas que a pandemia pode realizar, ou não
Na China, o vírus americano é um complô geopolítico

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Tiago é jornalista e escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. Trabalhou mais de 10 anos no varejo e no e-commerce de livros nacionais e importados. Atualmente cursa especialização em Ciências Humanas na PUCRS e Ciência Política no IERGS.