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Os delírios extremistas que a pandemia pode potencializar

Arte sobre foto de 
Andrew Stutesman, Unsplash

Fechamento de fronteiras. Toque de recolher. Distanciamento social. Quebra do sigilo de dados dos cidadãos. Cancelamento de manifestações culturais. Proibição de aglomerações. Limitação à circulação em espaços públicos. Superpoderes para as forças policiais. Isolamento e intimidação pela força.

As medidas acima podem parecer ter saído da cabeça de ditadores, mas fazem parte do plano de contenção da rápida contaminação de milhões de pessoas pelo novo coronavírus de qualquer governo comprometido com evidências científicas e análise de dados.

Evitar o colapso dos sistemas de saúde é um objetivo nobre, que legitima o apoio de qualquer pessoa a medidas tão extremas, e também faz refletir sobre o futuro da humanidade. Apoiá-las, neste momento, virou a bandeira máxima daqueles que rejeitam o negacionismo. Os que acreditam nas autoridades de saúde sabem dos riscos reais que a pandemia gera para todos os habitantes do planeta Terra.

Os que defendem o afrouxamento destas medidas usam com frequencia o argumento da possibilidade de “caos social” para justificar o seu ponto de vista. Aí eu me pergunto: em que mundo viviam essas pessoas antes da pandemia? Já não convivíamos com o caos social nas nossas rotinas de classe média? Ele estava aí, ali, aqui, lá. Ou era algo que apenas alguns esquerdistas ‘enxergavam’? Os cidadãos de bem ignoravam por ignorância ou por pura provocação sádica?

A mão invisível do mercado, no meio disso tudo, não consegue decidir o que é pior: a prorrogação de lucros pré-programados, ou o sacrifício de milhões de vidas. Tudo está sendo calculado neste momento – modelos matemáticos, gráficos, algoritmos, inteligência artificial. Toda a parafernália científica está sendo usada na tentativa de prever o que o futuro nos reserva.

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Alguns afortunados já planejam a vida na Lua. Nós, mortais e sem imunidade para enfrentar este e os outros vírus que ainda nem conhecemos, ficaremos aqui recebendo de estranhos “a verdade que você precisa saber” em mensagens de WhatsApp, posts no Facebook ou em vídeos no YouTube.

Seria ingênuo imaginar um mundo livre em que todos concordassem de boa vontade em colaborar, esquecessem as fakenews e teorias da conspiração, deixassem de lado a xenofobia, o racismo e a superioridade em achar que são melhores ou sabem mais que a ciência e o conhecimento acumulado por milênios. É do instinto humano competir – agora, com instrumentos poderosos, emoções são manipuladas em laboratórios e instituições criadas a duras penas são desmoralizadas publicamente por sábios de plantão. Ainda não existe vacina contra viroses ideológicas tóxicas.

Mas também é um instinto primitivo a luta pela sobrevivência. E é ela que as elites bilionárias esquecem ao apoiar o caos. Esta culpa latente que carregam é um dos motivos pelos quais se escondem em jatinhos privados, mansões distantes e carrões com vidros fumê, enquanto alguns poucos exibicionistas de ocasião – com alguns milhões, apenas – tocam o show de horrores que precisa continuar.

Enquanto nos martirizamos por não conseguir ajudar quem mais precisa – e não falo aqui apenas do momento que atravessamos, mas do mundo que existia antes – a lógica predatória do capitalismo vai ficando cada vez mais clara para um número maior de pessoas dispostas a enxergar e a tomar partido. As palavras renda mínima universal, antes um ideal de comunistas pervertidos, agora soam como música para os economistas mais ilustrados.

Não sou eu que estou dizendo: aquele mundo asséptico que permitia a todos se eximir de responsabilidades para salvar o seu clã, o seu grupo, a sua holding não existe mais. Isolados, somos obrigados a pensar em todos. Que façam o mesmo aqueles que tem mais de 9 dígitos em assets. Um portal para o futuro está aberto diante de todos. Inclusive dos 1942 bilionários produzidos pelos hábitos de consumo e dedinhos nervosos nas telas do celular de bilhões de humanos. Em resumo, são fruto da nossa total ausência de senso coletivo.

A História mostra que por mais mortíferas que as pandemias sejam, elas terminam. Podemos optar por aceitar a escalada do assédio do poder de dentro dos nossos apartamentos e casas, que muitas vezes nem nos pertencem mas sim aos bancos, ou podemos nos livrar das falsas polêmicas e cobrar ações concretas diretamente da mão invisível, sem intermediários.

O 1% pode fazer muito mais do que se pode imaginar. Os lucros deles, daqui para frente, estão nas próprias mãos. Não vai ser com estado mínimo e concentração de renda que continuarão reinantes. A lógica é muito simples: se a base da pirâmide se esfarela, a ponta vem abaixo.

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Tiago é jornalista e escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. Trabalhou mais de 10 anos no varejo e no e-commerce de livros nacionais e importados. Atualmente cursa especialização em Ciências Humanas na PUCRS e Ciência Política no IERGS.