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Cuidado com o tokenismo corporativo

Com o lema "O futuro só é se for para todos", o evento Americanas Summit 2021 levantou questões relevantes sobre meio ambiente e diversidade, mas caiu na armadilha do tokenismo.
Linn da Quebrada / Reprodução: Americanas Summit 2021

Pertencente ao conjunto de empresas dos homens mais ricos do Brasil, e uma das maiores varejistas do País, a Americanas S.A. – produto da fusão das Lojas Americanas com a B2W Digital – realizou no último dia 15 de outubro o evento anual dedicado a lojistas e parceiros em preparação para o pico de vendas de fim de ano.

De acordo com a divulgação do evento, “o Summit 21 conta com uma extensa programação online e gratuita dividida em três formatos: o Evento, uma live que reúne grandes nomes nacionais e internacionais; os Talks, com debates entre especialistas da americanas s.a. e convidados que transformaram seus negócios em cases de sucesso; e as Oficinas, aulas práticas facilitadas por parceiros de capacitação“.

o Evento

O Americanas Summit deste ano foi diferente de edições de anos anteriores não apenas no nome.

A 1ª edição ocorreu em 2017, no hotel Unique, em São Paulo. Se chamava B2W Marketplace Summit e, em 2020, foi repaginado para B2W Summit.

Este ano, o summit não focou totalmente na Black Friday – que, desde 2012, se consolidou como a principal data do calendário do varejo online no Brasil e que drenou por vários anos todas as atenções por sua grandiosidade.

O foco total deste ano esteve na ênfase da importância da diversidade e do meio ambiente, tanto para empresas, quanto indivíduos.

A mestra de cerimônias foi a Ana Clara, e a palestra de abertura foi de Leandro Karnal, que não poderia ser resumida em uma única frase, mas se pudesse seria: “o que nos faz humanos, diferentes de outros animais, é a capacidade de ter esperança e, portanto, não podemos perdê-la jamais“.

Reprodução: Americanas Summit 2021 / YouTube

A alta direção da empresa, ao contrário de anos anteriores, em que participavam nos eventos físicos ou ao vivo, este ano optou pelo envio de vídeos gravados, o que de certa forma a diferenciou de todos os demais participantes.

A ordem em que os vídeos foram apresentados coincide com a hierarquia interna do conglomerado: o primeiro vídeo, logo no início, foi do atual presidente da Americanas SA e ex-presidente das Lojas Americanas, Miguel Gutierrez.

Ao longo da programação, apareceram nesta ordem: Anna Saicali, ex-CEO da B2W Digital e agora CEO da plataforma de inovação; Márcio Cruz, ex-diretor comercial da B2W Digital e agora CEO da plataforma digital; Thiago Barreira, também ex-diretor comercial e agora CEO da Ame Digital (único a participar ao vivo); e, por fim, Timotheo Barros, ex-diretor de vários departamentos e agora CEO do braço de lojas físicas.

De todos os funcionários e funcionárias da empresa que apareceram nas mesas e debates, nenhuma pessoa era negra ou trans. Direção: branca. Apresentadores: brancos. Funcionários: brancos. Algumas pessoas na pequena plateia eram negras.

A intenção é das ‘melhores’: dar espaço e atender à demanda legítima por representatividade, escalando uma “indígena”, uma “lésbica”, uma “trans”. Porém, basta perguntar a uma pessoa trans ou uma pessoa indígena qual é seu tema preferido.

Talvez ‘diversidade’ não seja exatamente a resposta da maioria delas. E, no evento, o tema não só ficou para o final, como também ficou claro que, apesar do debate proposto, a mudança precisa ocorrer hoje e agora.

No caso, a começar pela própria empresa dona da festa, que teve mais uma oportunidade de se enxergar como é: predominantemente branca e masculina.

Gadú & Pataxó

Reprodução: Americanas Summit / YouTube

A pauta ambiental surgiu representada pela palavra “sustentabilidade”, que, sozinha, gera debates e discussões se está ou não adequada, em um momento que já se sabe que “consumo consciente” ou “desenvolvimento sustentável” são termos falaciosos.

O assunto veio à tona logo no início da melhor conversa do evento, entre a ativista Maria Gadú e a indígena Alice Pataxó.

Gadú reparou que a produção do evento utilizou copos de isopor e garrafas plásticas no camarim e disparou: “é muito importante que as empresas estejam à frente nessa discussão“.

Este foi o ponto mais alto do evento: o momento em que a marca Americanas esteve mais exposta a seus próprios problemas e fragilidades. A onipresença e o poderio de um dos maiores sucessos do varejo mundial ficou por um instante em segundo plano.

Astrid & Linn

Reprodução: Americanas Summit / YouTube

O último painel do dia foi protagonizado pela apresentadora Astrid Fontenelle e pela poeta, funkeira, diretora de cinema, atriz e cantora, Linn da Quebrada.

Transfobia

Depois da conversa com a Astrid, Linn encerrou o Americanas Summit 2021 com um show basicamente com as músicas do álbum mais recente, Trava Línguas – uma obra sensivelmente menos comercial que o álbum anterior, Pajubá – deixando de lado sucessos que a alçaram à fama nacional, como Bixa Preta, Enviadescer, e outras.

Reprodução: plataforma Americanas Summit 2021
Reprodução: plataforma Americanas Summit 2021

O comentários dos participantes na plataforma do evento foi em tom leve, educado e até elogioso durante toda a tarde, exceto no final.

Dois participantes homens e uma mulher começaram a criticar e a hostilizar, com ironia e sarcasmo nitidamente transfóbicos, a apresentação da artista trans.

Coube aos demais participantes se posicionar. Um dos comentários em apoio à artista teve mais de 15 curtidas, porém, não temos o print deste comentário.

A matéria da revista Exame que divulgou o evento com antecedência não cita nenhuma vez a única atração artística do evento, Linn da Quebrada.

Na verdade, Linn não era a principal atração artística como também estava escalada para um debate com Astrid Fontenelle e Ana Clara.

Reprodução: plataforma Americanas Summit 2021

Mal sabíamos que o copo de isopor e as garrafas de plástico escondiam um problema ainda maior: uma das marcas mais queridas do Brasil ainda não tem o traquejo, a desenvoltura e o exemplo necessários para se colocar como protagonistas nos debates propostos.

Digitada no Google, a palavra “tokenismo” aparece assim:

Tokenismo é a prática de fazer apenas um esforço superficial ou simbólico para ser inclusivo para membros de minorias, especialmente recrutando um pequeno número de pessoas de grupos sub-representados para dar a aparência de igualdade racial ou sexual dentro de uma força de trabalho.

Do início ao fim do evento, foi repetido o slogan “o futuro é agora”. Haja esperança caso o presente como está hoje se apresentar como o futuro.

O evento está disponível no YouTube do Americanas Summit na íntegra somente para quem possui o link (abaixo). A plataforma que foi especialmente desenvolvida para a interação entre os participantes, e de onde os prints acima foram tirados, não está mais no ar.

Tiago é jornalista e escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. Trabalhou mais de 10 anos no varejo e no e-commerce de livros nacionais e importados. Atualmente cursa especialização em Ciências Humanas na PUCRS e Ciência Política no IERGS.