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Bolsonaro sabota a própria reeleição e encurta o atual mandato

Foto: Marcos Paulo Prado, Unsplash 

O combinado não sai caro, diz o ditado popular. Bastava cumprir, minimamente, com o que ficou combinado nas eleições com o mercado e com um punhado de aliados para garantir com folga o 2º mandato. Mas o que se vê, no entanto, não causa espanto em quem já enxergava o isolamento político e desarticulação de Jair Bolsonaro desde o primeiro mandato de deputado federal, no distante ano de 1991.

Acumulando rompimentos, sem partido e isolado, com uma oposição antes enfraquecida e fragmentada, e agora unida e uníssona, não é preciso ser um exímio analista político para perceber a mudança de ânimos no presidente e no País.

Se antes da pandemia da COVID-19 a popularidade do presidente eleito com 57 milhões de votos transitava entre a militância mitológica, o exército de robôs e o delírio olavista-bolsonaresco, agora o capitão reformado chora – literalmente – as oportunidades perdidas.

Armínio Fraga sugere renda mínima para 100 milhões

O populismo de Bolsonaro entra para a História como o primeiro a excluir os mais pobres do discurso político. Ao privilegiar o andar de cima sem meias palavras, o presidente não apenas deixa claro para a própria base de apoio a verdadeira face do governo – nítida para quem não votou nele – mas também contraria um movimento único que o País e o mundo vivem: os governos do mundo inteiro estão liberados pelos economistas liberais para jorrar dinheiro público para salvar pátrias-amadas. Qual presidente não sonharia com tamanho cheque em branco? Qual governo não capitalizaria politicamente um fato tão relevante?

Acontece que depois da chuva de suspeitas de corrupção da família, depois de usar a caneta presidencial para afrouxar regras para liberar geral a turma da milícia para operar tranquilamente com armas, mesmo que Bolsonaro mudasse radicalmente o discurso e caísse na realidade – o que não soa realista – , ele não encontraria mais eco na base real de apoio para vencer novamente as eleições mesmo com o apoio de todos os canais abertos de TV do País, exceto um, a TV Globo.

Oposição ressuscitada

O negacionismo da gravidade da pandemia conseguiu algo que parecia impossível até a semana passada: tirou a oposição do torpor individualista para uma tentativa de derrubada do (desde sempre) adversário em comum.

O pedido de impeachment de Bolsonaro não era consenso nem mesmo entre as alas internas do PSOL – partido que organizou um abaixo-assinado que já acumula um milhão de assinaturas. A saída antecipada do presidente é dada como certa, apenas não se sabe ainda como nem quando.

Instituições estressadas

A intensificação dos ataques ao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal e a jornalistas também uniu outros personagens contra Bolsonaro. O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, protocolou um pedido de afastamento do presidente da República junto ao Procurador Geral da República, Augusto Aras, por disseminar desinformação sobre a pandemia do coronavírus. O ministro Gilmar Mendes se posicionou sobre o argumento usado por Paulo Guedes para dificultar o pagamento do benefício de R$600 aprovado pelo Congresso em regime de urgência, e ainda não sancionado pelo Executivo.

Gabinete do Ódio

Você já conhece o Jornal da Cidade Online? É um dos “veículos de comunicação” compartilhados por Carlos Bolsonaro nas redes sociais. Você pode ver um exemplo de xenofobia do tal veículo neste tweet. Não é difícil encontrar outros exemplos no site.

Estratégia fracassada

O guru da Virgínia dos Bolsonaro sugere a restauração da “unidade nacional” à força, através do exército, às vésperas do aniversário do golpe militar de 1964. Para isto acontecer é muito fácil: basta Bolsonaro renunciar. O governo hoje tem mais militares no governo do que tinha na ditadura.

Com a renúncia, pouco ou nada mudaria nos escalões abaixo do capitão. Nem mesmo o discurso anticomunista ateu – idêntico ao utilizado por militares 50 anos atrás. Não acredita? Assista ao vídeo abaixo, do vice-presidente Hamilton Mourão, conclamando apoiadores para as manifestações ocorridas no dia 15 de março:

Seguindo a tese do astrólogo, o Brasil estaria então livre das vontades dos governos estaduais – que seriam, segundo ele, representantes das vontades do governo chinês ou russo – e estaríamos enfim unidos através de uma restauração militar. Será que, nesta tese, os militares colocariam a China, maior parceiro comercial do Brasil, para correr?

Sem saída

Aparentemente, neste momento, há apenas uma certeza: com renúncia ou com impeachment, o Brasil seguiria sem governo, com sorte nas mãos de Deus, até 2022.

Tiago é jornalista e escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. Trabalhou mais de 10 anos no varejo e no e-commerce de livros nacionais e importados. Atualmente cursa especialização em Ciências Humanas na PUCRS e Ciência Política no IERGS.