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Nada detém o Mercado Livre

Detalhamos como a maior plataforma de e-commerce da América Latina cobra taxas de juros de até 547% ao ano em microempréstimos.
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Artigo publicado originalmente no
Medium em 27 de outubro de 2019.
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Um empréstimo para que nada te detenha“, diz a mensagem que o cliente do Mercado Pago – meio de pagamento do Mercado Livre – visualiza ao clicar na aba Mercado Crédito. A frase é acompanhada de uma imagem de um jovem empreendedor grisalho. Nada detém o Mercado Livre… Os empréstimos pessoais despertaram a atenção das fintechs e empresas de e-commerce não por acaso.

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Mas o Mercado Livre não é uma instituição financeira, nem uma fintech“, você pensa. Exato, mesmo sem operar formalmente como instituição financeira, a transversalidade nos negócios está toda lá no app: cartão de crédito pré-pago, pagamento de boletos, e outras facilidades. Uma delas, dinheiro rápido e fácil, sem esforço e sem telemarketing. Desta vez, a oferta de crédito vem do maior marketplace do Brasil, que acaba de comemorar 20 anos de existência este mês, valendo aproximadamente US$ 33 bilhões em Wall Street.

Meli, ou Mercado Libre, é neste momento a empresa mais valiosa da Argentina. Competente em zerar riscos entre compradores e vendedores, e respeitada por garantir a entrega do produto ou devolver o dinheiro do comprador, a companhia coleciona histórias e lendas.

História ou lenda, a empresa teve um dia a fama de “inacessível” aos vendedores e usuários, mas que na economia massificada rapidamente se desfez. Aquela que um dia substituiu os classificados dos jornais e se tornou o maior marketplace do Brasil e da Argentina acaba de lançar a modalidade de empréstimo pessoal, com um detalhe: juros de 15,22% ao mês. Tudo de forma simples, rápida e pré-aprovada, a um simples clique de distância para potencialmente mais de 20 milhões de clientes só no Brasil, se considerar a audiência estimada da plataforma.

O preço da facilidade, no caso do Mercado Livre, chega a 547,44% ao ano.

Microcrédito com maxijuros

Quem precisa de R$ 100 com urgência?

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A mensagem do Meli fala a um público específico. Uma pessoa que ganha R$ 1.000 por mês no Brasil se enquadra como baixa renda numa análise financeira dos cinco grandes bancos do País. Além disso, qualquer pessoa pode precisar de R$ 100 em algum momento de emergência. Quem já comprou em feiras, bazares ou mesmo cerveja na rua já observou que as maquininhas de débito e crédito – incluindo as do Mercado Livre – revolucionaram a vida de quem vende coisas para (sobre)viver.

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O Mercado Pago não deixa muito claro (somente naquelas letras pequenas) que não realiza operações de crédito. Os responsáveis por este truque só aparecem ali: são os parceiros Money Plus SCM LTDA e o Banco Topázio. Isto significa que o Mercado Livre compartilha as suas informações com estas instituições, basta você clicar “sim, eu autorizo”, e pronto. Cash In.

Cash In para o Meli, para o Money Plus e para o Topazio, apenas: números divulgados publicamente pelo setor bancário no Brasil revelam que 1% do volume de crédito concedido pelos bancos são responsáveis por 10% dos lucros das instituições. Apesar de toda inovação tecnológica, o endividamento alcança o recorde, e o jogo dos empréstimos pessoais segue recheando os lucros dos bancos sob zero cobranças de um mea culpa.

Anúncios & Campanhas de Publicidade

Meli não está para brincadeira quando se trata de rentabilidade. Quem chega aos US$ 33 bilhões, não para por aí.

Quando você publica um produto para venda, você até pode escolher a modalidade gratuita. Porém, é de conhecimento comum que você vai demorar mais para receber interessados no seu anúncio gratuito. Isto porque o algoritmo que rege a busca e todas as vitrines é movido a dinheiro. Então todos os vendedores já calculam o valor final que gostariam de receber, e adaptam os preços finais, incluindo os custos com um anúncio pago. É batata, você estava lá tentando vender aquele seu disco antigo sem nenhum tipo de impulsionamento, por um preço mais baixo, e acaba vendendo por um valor até 30% maior que o original, graças à exposição.

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Para um livro de R$ 18,99, são cobrados R$ 8,04 em um anúncio Premium. Equivale a 42,3% do valor da venda. Sempre bom lembrar que para usar esse dinheiro na sua conta bancária, desconte mais R$ 3 da taxa de retirada. Seus R$ 18,99 foram transformados em R$ 7,95 sem nenhuma cerimônia.

Mercado Libre claramente não é uma empresa que se contenta em cobrar bem pelos serviços prestados, e descobriu tantas formas de ganhar dinheiro que aqui tento listar apenas algumas das que percebi. Além de você ser ‘convidado’ a abdicar de 40% do valor da venda em troca de posições melhoradas na busca, você pode optar em pagar um pouco mais para fazer com que seus itens apareçam em áreas do site onde ele não apareceria mesmo com um anúncio Premium. Esta fonte adicional de receita ganhou o nome de Campanha de Publicidade.

Na Campanha de Publicidade, vale a lógica parecida com a das plataformas do Facebook Ads e Google Ads: os cliques dos clientes são “leiloados”, e alguns produtos, dependendo da curiosidade que despertam, podem ser clicados por desinteressados, consumindo rapidamente a verba que você destinou para a campanha. Se você não souber exatamente o que está fazendo, pode acabar devendo ao Mercado Livre sem sequer ter vendido o seu item. É sério! Tenha cautela.

Antecipação

Quando você acha que a equipe de rentabilidade parou de trabalhar, eles aparecem mais uma vez, agora na forma de Taxa de Antecipação.

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No fluxo tradicional, quando você vende um produto, seu dinheiro fica disponível na conta do Mercado Pago um dia útil após a confirmação do recebimento do produto pelo comprador. Funciona assim: o cliente recebe o item na segunda-feira, e o dinheiro fica disponível na sua conta do ML na terça. Aí entra o incansável pessoal da rentabilidade: por 1,6% de taxa, você pode fazer o dinheiro ficar disponível no dia que o seu cliente recebeu, naquele instante.

De qualquer forma, “disponível” não significa na sua conta. Para “cair na conta” do seu banco, você precisa fazer um pedido de saque, e aguardar mais um dia útil, e pagar mais R$ 3 de taxa de retirada.

Na prática, você paga mais de 500% ao ano. E não importa se você tem o Cadastro Positivo ou 1.000 pontos no Serasa Score, a taxa de antecipação é para todos. Afinal, um dia a mais, um dia a menos: faz toda a diferença no bottom line de qualquer um.

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Convém ressaltar que a companhia oferece um cartão de crédito pré-pago gratuito, e o saldo das suas vendas é automaticamente revertido em saldo do cartão. Esse saldo rende 100% do CDI (atualmente em 5,9% ao ano). Ainda não pude compensar uma única taxa de saque (R$ 3) com os centavos que a correção rende. Ao usar o cartão para compras, não há taxas. Já para sacar dinheiro vivo num caixa 24 horas, você paga R$ 6,50 por saque.

Piratas & DarkWeb

Também é de conhecimento comum que o Mercado Livre é livre para a venda de softwares e produtos falsificados. Numa rápida pesquisa, é possível encontrar softwares que custam mais de US$ 1 mil a licença sendo vendidos por menos de R$ 100. Testei um deles, que me vendeu um pacote Adobe por R$ 28, com direito a Photoshop, Premiere e Light Room. Apesar de o vendedor ser enfático na garantia do funcionamento, o Photoshop não me permitiu salvar nenhum arquivo que criei, e o Premiere fechou sozinho antes de eu conseguir editar qualquer vídeo.

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Bem feito? Eu interpreto da seguinte forma: o único lesado na história toda fui eu. O Mercado Livre ganhou com a transação, e o ‘amigo’ vendedor também, porque ele só libera o download depois que você libera a grana para ele. Não conheço os esforços da empresa para coibir este tipo de conduta, que certamente devem existir. Se existem, pouco ou nenhum efeito tem sobre o domínio total dos piratas. Pirata ou original, a NASDAQ ganha sempre. Quantos % do faturamento do ML vem de itens piratas? Perigosas perguntas.

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Curiosidade: poucos dias após a compra, recebi a mensagem ao lado por SMS. Não posso acusar levianamente de que há uma relação direta entre uma coisa e outra. Porém, quando você compra de uma pessoa no ML você dá acesso aos seus dados pessoais como e-mail e CPF a um total desconhecido.

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Tiago é jornalista e escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. Trabalhou mais de 10 anos no varejo e no e-commerce de livros nacionais e importados. Atualmente cursa especialização em Ciências Humanas na PUCRS e Ciência Política no IERGS.