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Novo brasileiro mais rico não tem negócios diretos no Brasil

A carteira de apostas de Eduardo Saverin, sócio de primeira hora de Mark Zuckerberg, inclui startups de tecnologia na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos.

2012 - Wikimedia Commons

A última vez que Eduardo Saverin falou sobre fazer negócios no Brasil foi em 2012, quando ele declarou à revista Veja que chegou a trocar e-mails com Eike Batista, mas que não queria investir em minérios.

Primeira versão do então Thefacebook / Reprodução: Internet Archive

Parceiro de primeira hora de Mark Zuckerberg, Saverin tinha lucrado US$ 300 mil em operações no mercado de petróleo – consideradas insider trading por diversas fontes – quando investiu US$ 19 mil nos primeiros servidores que hospedaram a empreitada do então chamado TheFacebook, em 2004.

O novo brasileiro mais rico tem uma diferença em relação a outras figuras que já habitaram o topo dessa lista: é a primeira vez que o dono da maior fortuna não tem negócios diretos com o País.

Apesar disso, foi a cidadania brasileira que garantiu a Saverin uma economia de US$ 100 milhões em impostos no IPO do Facebook, em 2012, após abrir mão da cidadania norte-americana.

Eu não sou um especialista em impostos. Respeitei todas as leis. Tive que pagar uma taxa de saída. A decisão não tem nada a ver com impostos. Eu nasci no Brasil e fui um cidadão americano por cerca de dez anos. Eu me vejo como um cidadão do mundo

Eduardo Saverin, em entrevista ao jornal The New York Times em 2012

No vídeo, em uma das raras participações em eventos públicos, Eduardo fala ao lado do atual sócio, Raj Ganguly, sobre a firma de investimentos de risco que fundaram juntos, a B Capital.

Saverin ficou US$ 5 bilhões mais rico nos últimos 12 meses

Segundo o Billionaire’s Index, da Bloomberg, os US$ 19.4 bilhões (mais de R$ 100 bilhões) atuais garantem a Saverin a 97ª posição no ranking das 500 maiores fortunas do mundo. Mas foi na lista da Forbes que Saverin ultrapassou o ex-brasileiro-mais-rico, Jorge Paulo Lemann.

A dupla de brasileiros não é a única divergência nas listas. As diferenças entre a lista da Bloomberg e a da Forbes são ‘normais’ por causa das metodologias utilizadas pelos rankings para calcular as fortunas.

O valor atualizado da fortuna de Saverin inclui os 2% de participação no Facebook, de acordo com um documento do Facebook de 2021.

A rápida, mas fundamental, passagem de Eduardo pela empresa garantiu a ele o direito de se auto intitular “cofundador do Facebook” após processar Zuckerberg.

Segundo relatado em livros, reportagens e também no filme A Rede Social, Zuckerberg combinou uma participação de 30% com Eduardo, mas após a chegada de Sean Parker, um dos fundadores do Napster, à rede social Zuckerberg teria aceitado reduzir a participação de Eduardo a 0,03%.

O terremoto jurídico de 2005, que abalou a relação de Zuckerberg e Saverin – mas que garantiu ao brasileiro 5% das ações – não parece ter deixado o brasileiro abalado. Pelo contrário: o que se observa é entusiasmo com a empresa nas poucas postagens nas redes sociais.

O entusiasmo de Eduardo com o Facebook se manteve mesmo após a revelação de um e-mail de Zuckerberg aos novos sócios em 2005 propondo a exclusão de Eduardo da sociedade:

Ele deveria criar a empresa, obter financiamento e fazer um modelo de negócios. Falhou em todos os três. Agora que eu não vou voltar para Harvard, não preciso me preocupar em ser espancado por bandidos brasileiros

Mark Zuckerberg sobre Eduardo Saverin, em e-mail interno do Facebook em 2005

Em 2009, Saverin se mudou para Singapura. Segundo relatos da época, a vida dele parecia um clichê: fofocas sobre seu Bentley em tablóides, mesas fixas em boates de elite e contas de bar que chegavam a US$ 50 mil.

Estou incrivelmente orgulhoso do que Mark fez para construir uma instituição do tamanho e valor do Facebook. Ele vai trabalhar duro para acertar as coisas.

Eduardo Saverin, em entrevista à Forbes em 2019

A versão oficial sobre o motivo da mudança do empresário para a Ásia é a de que foi ajudar um amigo em um negócio. Na curta estadia, teria reencontrado Elaine Andriejanssen, que havia conhecido durante a faculdade. Apaixonado, teria resolvido ficar em Singapura e se casar.

Hoje em dia, casado com Elaine Andriejanssen desde 2015, tudo leva a crer que o bilionário dedique a maior parte do tempo aos negócios a partir do home office em um condomínio de luxo, segundo apurou Alex Konrad, editor de Venture Capital da Forbes, em 2019.

Um dos quartos do apartamento serve de escritório. Segundo reportagem da revista Veja, Saverin não tem secretária. Na época da publicação, em 2012, eram três monitores Mac de 27 polegadas que dividiam a atenção com um iPhone e um iPad, permanentemente acessados, segundo a matéria.

Quem o entrevista garante que ter acesso a Eduardo é uma das chaves para conseguir um pitch na B Capital, e que ele se esforça para passar uma imagem de figura discreta na agitada vida noturna dos ultrarricos de Singapura, que ficou mais conhecida após o sucesso do filme Podres de Ricos (Crazy Rich Asians).

A rotina de playboy internacional sempre foi desmentida pelo brasileiro, mas ganhou os holofotes, e até contornos dramáticos, quando Saverin decidiu renunciar à cidadania americana. Sua ideia, supostamente, seria evitar os 15% de impostos cobrados sobre ganhos de capital nos EUA, uma taxa que não existe em Singapura.

‘Zero reais’ na carteira

Singapore Land Tower / Reprodução: Google Street View

O novo brasileiro mais rico não chegou a precisar de reais no bolso ou na carteira.

Nascido em São Paulo em 1982, não mora no Brasil desde 1993, quando se mudou com a família para a Flórida, após o confisco das poupanças no governo Collor. Na mesma época, surgiu uma suposta lista de pessoas ‘sequestráveis’ e a família Saverin estaria nesta lista. O pai de Eduardo, Roberto Saverin, negou que a lista tenha sido o motivo da debandada, colocando toda a culpa no ‘congelamento’ das poupanças de Collor em uma entrevista exclusiva à revista Veja em 2012.

A fuga de famílias brasileiras ricas para o exterior é algo costumeiro em crises financeiras.

Neto do fundador da Tip Top

O apelido Dudu foi dado pelo avô de Eduardo, o judeu-romeno Eugênio Saverin, que se refugiou em São Paulo e abriu uma fábrica de roupas infantis, a Tip Top, em 1952.

A marca virou sinônimo de macacões de bebês por gerações, e as operações de tecelagem e fabricação só deixaram de ser da família de Eduardo em 1987, quando foram vendidas para os atuais donos.

A operação rendeu um bom dinheiro à família Saverin. Depois que deixou o Brasil em 1993, Eduardo não morou aqui de novo.

Aos 13 anos, Eduardo já impressionava por ser um exímio enxadrista em Orlando. Na adolescência, dividiu o mesmo pátio no ‘recreio’ com o cantor Enrique Iglesias e com o cocriador do Firefox, Blake Ross, que também frequentavam a Gulliver Preparatory School, em Miami.

Ao contrário de Zuckerberg, Saverin se formou bacharel em Economia em Harvard, conquistando o grau máximo summa cum laude. Durante a faculdade, além de investir no Facebook, o brasileiro ainda se destacou como presidente da Associação de Investimentos de Harvard e se tornou membro da fraternidade judaica Alpha Epsilon Pi.

“Não importa o quão sortudo ou abençoado eu possa ser, nunca vou me aposentar na praia. Ainda temos tempo para fazer as tecnologias que impactarão o mundo.”

Eduardo Saverin em entrevista à Forbes em 2019

O perfil dos negócios de Eduardo Saverin

Preferência por plataformas de logística

Uma olhada rápida na lista de empresas que Saverin contempla como investidor-anjo e já se percebe a preferência por soluções que orbitam o e-commerce, desde serviços que expandem áreas de abrangência das entregas até soluções para pagamentos.

Em 2019, deu a primeira entrevista após sete anos sem conversar com algum repórter cara a cara. Foi para Alex Konrad, editor de Venture Capital da Forbes, no 8º andar da Singapore Land Tower.

Para Konrad, Eduardo pareceu alguém no controle das informações que circulam sobre ele.

12 startups que receberam
cheques de Saverin
ou da B Capital

Bird
Bizongo
CoinDCX
Evidation
Icertis
Innovaccer
Jumio
Mswipe
NinjaVan
Perx
Qwiki
Yalo

Sobre as muitas especulações sobre os motivos que levaram Saverin a abdicar da cidadania estadunidense, ele rebate a versão que prevalece, a de que a decisão ocorreu estrategicamente um ano antes do IPO do Facebook na NASDAQ, em 2012.

Ele diz que teve mais a ver com estabelecer raízes em Singapura do que pagar menos impostos sobre sua riqueza. “Não tinha nada a ver com o noticiário da época. Isso não é verdade”, disse ele à Forbes em 2019.

A coincidência de datas com o IPO teria levado a uma economia de pelo menos US$ 700 milhões em impostos nos EUA, de acordo com The Wall Street Journal e outras fontes consultadas por Bloomberg e Forbes.

‘Chaves de acesso’

A B Capital oferece um asset poderoso: uma aliança com a Boston Consulting Group (BSG), fornecendo acesso a uma das consultorias mais conceituadas no mercado de investimentos de risco às empresas do portfólio de Saverin.

Maior corretora de criptomoedas da Índia

A notícia mais recente sobre Eduardo Saverin é a comemoração do novo unicórnio indiano: a CoinDCX ultrapassou US$ 1 bilhão em valor de mercado na última semana.

Para quem ainda se apresenta como investidor-anjo de “startups em estágio avançado”, um unicórnio dominante no portfolio certamente ‘eleva a régua’ de futuros entrantes no mercado e no portfolio de Saverin.

Quem comentou a notícia foi Neeraj Khandelwal, cofundador e CTO da corretora de criptomoedas.

A Índia atualmente se beneficia do banimento da mineração de Bitcoin pela vizinha China, e também pelo endurecimento do governo chinês sobre o mercado de criptomoedas. O parceiro de Eduardo nesta empreitada vê o momento com otimismo em uma entrevista para o site Business Insider:

Nos corredores do governo, bitcoin e criptomoedas são simplesmente essa nova tecnologia pela qual a Índia é louca. A Índia certamente não quer seguir o caminho da China.

Neeraj Khandelwal, cofundador e CTO da CoinDCX

Em 2012, Eduardo disse que queria entrar no Brasil, “porque está em meu coração, sou brasileiro, é o lugar onde nasci”, segundo palavras dele, mas que ainda não tinha descoberto uma boa ‘janela’.

O fato de Eduardo ser brasileiro não costuma ser destacado pela imprensa internacional ao publicar notícias que se referem a ele ou às empresas nas quais investe. Ser “cofundador do Facebook” é uma informação que parece substituir qualquer outra credencial.

O Facebook atingiu a marca de US$ 1 trilhão de valor de mercado em junho, o que equivale mais da metade do PIB brasileiro, que ficou em US$ 1,84 trilhão em 2019.

Assim como a nacionalidade não determinou o destino dos investimentos do cofundador brasileiro do Facebook, Saverin tem mais seguidores no LinkedIn do que no próprio Facebook.

Para alguém tão preocupado em controlar a narrativa pública da própria história, Eduardo parece ter esquecido de procurar a ‘boa janela’ no Brasil, ou já que não houve uma em 2012, quando o País crescia, talvez ela nunca exista.

Tiago escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. É editor e redator em Vida Indigital, e redator voluntário na Rede de Produtores de Conteúdo da Politize!, uma ONG dedicada à Educação Política. É jornalista e especialista em Ciências Humanas pela PUCRS. Trabalhou e empreendeu no varejo de livros por mais de 10 anos.
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