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Ainda orangotangos – Paulo Scott

R$50,00 

Ainda Orangotangos é o livro de contos do escritor gaúcho Paulo Scott publicado pela primeira vez em 2003, pela editora Livros do Mal.

Exemplar da 1ª edição, com páginas amareladas.

O CD original está incluso, porém, está danificado.

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Ainda orangotangos é o livro de contos do escritor gaúcho Paulo Scott, autor dos volumes de poemas Senhor Escuridão. São narrativas curtas, cruéis e verdadeiras, que agem como disparos velozes e certeiros, relatos nos quais a realidade se rende à estranheza e se abre numa mistura do bem com o mal. O prefácio é assinado pelo escritor e crítico literário José Castello, que afirma que “os contos de Scott perseguem o ser humano ali onde ele é mais humano, e mais desumano também. Ali onde tudo fracassa e, em meio à derrota, num sopro de coragem, o homem, apesar de tudo, vence”. Temas considerados desagradáveis, como epidemias, torturas, obsessões e perversões, são recorrentes na prosa de Scott, repleta de uma poesia antilírica tirada do feio e do lúgubre. Ainda orangotangos, prossegue Castello, “sempre orangotangos: homens da floresta virgem, lançados no abismo da origem. Homens do início, precursores, mas também estigmas, fardos a carregar. Um passado que pesa.” Os textos de Paulo Scott relatam um mundo observado com as únicas lentes capazes de encarar a realidade: os olhos da loucura.

Trecho do livro:

“A ventarola da cabine ficou aberta, o vento entra e sai furiosamente, joga um frio que arde em meus lábios. O vagão balança como um torniquete frouxo, desejoso por descarrilar, nadando nos míseros segundos da queda (primeiro pela grama coberta de gelo, depois encosta abaixo), como teus dedos mortos em minha boca. A gravação da tua voz aflita pedindo pra eu não te deixar partir, foi o que sobrou. Todos estão mortos. O condutor sintético (imune por ser máquina) leva o trem pelo pampa gélido. Minhas unhas rodam como hélices sobre teus olhos, esfregam-se contra a maciez já quase exilada do teu rosto, para dar-te dor, ressuscitar-te, fazer-te voltar. Nada adianta. As bactérias aconchegadas nas minhas gengivas se atiçam mais e mais, reproduzem-se, aguardam como um cardume de robalos para saltar de meus beijos salgados, infectando quem estiver pela frente. Abro tua boca, observo tua língua querendo azular, recordo tua expressão de espanto naquela noite em que nos conhecemos na estação de alpinismo, quando, num beijo afoito, descobriste que eu não tinha língua e também o fato de teres me aceitado sem medo. Mas isso agora é passado. Aperto firme tua língua, arranco-a sem vacilo, beijo tua boca pela última vez, tomando-te como par. Misturado no sangue, sinto o doce da tua saliva, sugo-o sem engolir. Aperto os lábios, deixo de respirar. Protelo teu gosto no céu da minha boca, engasgo-me entre nuvens brancas (empoadas sem pressa, enquanto sufoco), espremo-as em busca de ar, mesmo assim não respiro. Oh, espera meu inocente amor, espera, já vou. Não há mais vingança. Meu coração salta forte, cruzo os braços, aperto-o como nunca, é bom que saiba logo: chegou nossa hora.”

Peso0.250 kg
Dimensões12 × 8 × 1.5 cm
Condição do produto

Disponibilidade

Editora

Idioma

Origem

Brasil

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