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Os números da pandemia não perturbam Bolsonaro

Quantas vezes você já parou para pensar sobre as suas certezas absolutas? E quantas dessas vezes você mudou de ideia?

Eu imagino que pelo menos algumas vezes. Todos nós mudamos de ideia sobre muitos assuntos ao longo da vida. Ele não? Principalmente quando nos deparamos com mentiras ao longo do caminho, ou tentativas de manipulação, ou ainda, quando aprendemos algo novo.

Não é, entretanto, o que fazem os que acreditam na própria mentira. Esses acreditam sem ressalvas nas versões de si mesmo, nas histórias contadas e repetidas sem questionar, não duvidam um minuto sequer da própria perspicácia e, quem sabe, genialidade.

Muitos de nós, as pessoas que mudam de ideia – seja o sabor da pizza ou o drink preferido e até mesmo os posicionamentos políticos – carregamos um gatilho mental muito forte: o da síndrome de impostor.

Seja em uma entrevista de emprego, seja em uma reunião com gente desconhecida ou numa prova de vestibular, a dúvida está sempre presente: “sou bom o suficiente para isso?“.

Algumas pessoas realmente não fazem essa pergunta a si mesmas e acreditam que são tão foda como dizem ser. Fico imaginando se dão gargalhadas quando chegam em casa depois de dizer que a Terra é plana ou que a pandemia se trata de um comunavírus ateu conspiratório.

Muita gente que eu conheço prefere viver no mundo da fantasia – seja para minimizar algum sofrimento ou simplesmente por preguiça de encarar más notícias e sentimentos indesejados. Mas eu imagino que muitas delas deitem a cabeça no travesseiro e pensem: “eu sou uma fraude mas dei certo“, no caso das que ganham dinheiro mentindo.

Onde quero chegar

O governo Bolsonaro é um governo fake, ou um não-governo, ou ainda, um desgoverno. Desde antes das eleições se falava em antissistema ou antipolítica. Aí surgiram duas criaturas controversas no protagonismo da cena política: um deles, Bolsonaro, representando o que se chamou de “nova política”, mesmo sendo o que há de mais velho na política brasileira. Não apenas por ser idoso, mas pela trajetória. O outro, um ex-apresentador de televisão, um homem das comunicações, um empresário paulistano bem-sucedido: João Dória Jr., a personificação da antipolítica fake.

Bolsonaro, que sempre foi um político depois do convite para se retirar da carreira militar, ainda na década de 1980, construiu uma versão de Brasil que muita gente – eu incluído -acreditava que nunca iria colar – de tão deslocada da realidade. O empresário paulistano, ao mesmo tempo, ia se forjando um político antipolítica – uma contradição sem fim.

Para surpresa daqueles que não trabalhavam com a hipótese da normalização radical de absurdos, tudo parece distante de uma normalidade. Mas nos últimos meses eu tenho conseguido compreender um pouco melhor como chegamos até aqui. Não faltaram sinais de que daria nisso.

Tudo é fake

Uma amiga, cuja mãe foi delegada de polícia em São Paulo, comprou a carteira de motorista e sempre dava um jeito nos pontos das infrações para não perder o documento. Um colega em uma das empresas que trabalhei assumiu um cargo de liderança forjando o currículo. Teve até contrato de aluguel falso para enganar a empresa. Teve CEO com favorecimento ilícito. Integrantes do governo inflaram as carreiras pregressas com pós-graduações em instuições que desmentiram tais qualificações.

E eu não consigo parar de me lembrar de exemplos. Tem o dono do restaurante que agrada a polícia com churrasco quentinho em troca de bom relacionamento e compra carne de frigoríficos clandestinos. Tem o bispo que foi preso por pedofilia. Tem o irmão de alguém que forja acidente de carro para roubar a parte na herança do pai. Tem o médico que deve IPTU e joga golfe no Country Club. Tem a desquitada que não deixa os filhos andarem com amigos que tenham uma mãe solteira.

Tanta gente convive com problemas estruturais, que sempre existiram, e foram sendo normalizados como parte de um grande problema sem solução chamado Brasil. Nem a idade sai ilesa. Quantas pessoas mentem a idade? Quantos coaches são formados em psicologia? Quantos astrólogos inventam horóscopos? Quantos pastores disseminam preconceitos porque sabem que pessoas e famílias desestruturadas recorrem a eles?

Ignoramos sistematicamente o combate à hipocrisia e à demagogia. Normalizamos o fundamentalismo religioso ao vivo em boa parte dos canais da TV aberta. Passamos batido por aquele embate moral com os nossos vizinhos por pura indisposição ou preguiça.

Vivemos um momento único em que ficar frente-a-frente consigo mesmo no espelho é um dever cívico, um favor à pátria. Saber o lugar de fala, conhecer o lugar de representatividade, assumir pura e simplesmente quem se é, quais as intenções, aonde se quer chegar, e por quais caminhos, tudo é política e não temos escapatória.

Os números da pandemia

Eu não tenho mais dúvidas: Bolsonaro não tem paz. A verdade é tão sufocante para ele que um mundo paralelo se tornou uma saída possível. O poder emanado da Bic presidencial não precisou criar um monstro: ele já existia. Rancor, ressentimento, lixo estético e fantasias – anos e mais anos do mais cruel revanchismo nutrido num ostracismo de décadas. Ele, que viveu isolado e ridicularizado por quase 30 anos em um canto do Congresso, não venceu a escuridão do passado na presidência: ele a impõs para todos não apenas a velha apologia à tortura mas agora – com a ajuda de príncipes, gurus, bispos, policiais, militares e avacalhadores profissionais – uma estratégia historicamente falida para acomodar interesses tão particulares quanto salvar os filhos da justiça a qualquer preço.

Os números da pandemia são compilados por boa parte da imprensa de forma independente, diretamente com prefeituras, secretarias estaduais e até mesmo cartórios e cemitérios. Não existe a menor possibilidade de Bolsonaro conseguir censurar a gravidade da pandemia. Além disso, políticos de todas as nuances à esquerda dele – ou seja, todos que não são bolsonaristas – já têm clara a ideia de que ele semeia e se alimenta do caos. Ele está plantando ódio, rancor, destruição e morte mas acredita que são os comunistas infiltrados que vão colher… Mal pode esperar pelo tsunami de rejeição que está prestes a eclodir. As panelas, os injustiçados, as minorias majoritárias, as torcidas organizadas, as redes sociais, a Xuxa: tudo indica que o feitiço está se voltando contra o feiticeiro. A ele, restam os filhos, a Bic, os generais do xadrez e os vôos de helicóptero sobre a meia dúzia de fãs histéricos.

Bolsonaro é a fraude que deu certo. Ele talvez não aceite que é uma fraude. Collor pediu desculpas pelo roubo da poupança depois de quase 30 anos. Bolsonaro está só e nu na frente do espelho. Talvez não tenha começado ainda a pensar nos pedidos de desculpas, é do tipo tóxico e orgulhoso até das próprias tragédias. Para estes, existe a lei. A quem foi conferida a Bic há dois anos com 58 milhões de votos?

Falar em impeachment faz parecer que ninguém entendeu o golpe de 2016 e que o povo aprofundou o golpe nas urnas em 2018. Certamente há quem especule que Rodrigo Maia pode pautar um dos pedidos antes de deixar a presidência da Câmara. Mesmo assim seria necessário o apoio de parte da base governista formada com o centrão. Uma eventual derrota na votação do impeachment poderia imitar o ocorrido com Trump nos EUA, e ser ineficaz para remover Bolsonaro da cadeira. Mas também poderia sinalizar maior coesão dos campos de oposição, marcados pela pulverização.

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Tiago é jornalista e escreve sobre tecnologia, política e desafios sociais contemporâneos. Trabalhou mais de 10 anos no varejo e no e-commerce de livros nacionais e importados. Atualmente cursa especialização em Ciências Humanas na PUCRS e Ciência Política no IERGS.